"Desde que em 1982 começamos a cantar o refrão 'Deus é menina e é menino' com letra e música de Pepeu Gomes, uma brecha se abriu na cultura popular brasileira para considerarmos a questão da possibilidade de acolher um rosto feminino da divindade (...). No contexto brasileiro, a música popular introduziu de maneira animada e alegre o feminino na hegemonia do masculino, sobretudo em relação à complexidade do ser humano e à simbologia do divino. De repente a música (...) provocou um desejo de respeito às diferenças não só políticas e sociais, mas também simbólicas. A canção fez parte de um conjunto amplo de produções artísticas da época com base nas quais preconceitos, papéis e estereótipos sexuais foram criticados e até rejeitados (...) Cantar o Deus menina e menino, reconhecer o feminino e o masculino em nós, pode ser considerado um passo em direção à possibilidade de uma teologia feminista menos fechada apenas a um grupo de especialistas ou a algumas pessoas interessadas (...)".
A autora, ao defender nesta excelente obra que Deus foi inserido nas diversas culturas e religiões, incluindo-se aqui o próprio cristianismo, como um ser essencialmente masculino, questiona o porquê das mulheres terem sido colocadas em segundo plano nesse contexto. Além disso, ela também questiona o porquê dos símbolos do heroísmo, do sacrifício e da abnegação, dentre tantos outros, terem uma característica acentuadamente masculina. Embora a sua obra seja, sem dúvida alguma, muito bem escrita e, inclusive, recomendada a sua leitura, acredito que o nome Teologia Feminina seria mais apropriado para descrever essa área relativamente nova da Teologia, em vez de Teologia Feminista. A meu ver, a Teologia Feminista corresponde muito bem a uma outra faceta da Teologia da Libertação. Em outras palavras, trata-se de uma teologia voltada para defender os marginalizados e excluídos da sociedade. Por outro lado, a Teologia Feminina seria aquela que produz reflexões sobre Deus e a sua interação com o mundo a partir da perspectiva feminina. Enquanto que o adjetivo feminista transmite, por uma lado, uma certa sensação de vingança almejada por parte das mulheres, o adjetivo feminina, por outro lado, parece ser mais ameno e apropriado. Talvez, esta seja uma mera questão de terminologia. Quem sabe?
De qualquer forma, como homem, gostaria de dizer que não me oponho à existência de uma teologia feminina. Muito pelo contrário, eu até a defendo e admiro, desde que, é claro, essa teologia não seja radical como aquela propagada por Elizabeth Cady Stanton que, no século passado, escreveu a Bíblia das Mulheres, Bíblia esta que teve muitos de seus trechos eliminados pela autora, pois eram vistos como textos claramente opressivos contra as mulheres. Acredito que atitudes como a do Papa João Paulo II, que em 2004 nomeou duas mulheres para integrarem a Comissão Teológica Internacional, Sara Butler e Barbara Hallensleben, devem se incentivadas e repetidas muitas vezes. O meu sincero desejo é que as mulheres tenham os seus direitos equiparados aos direitos masculinhos. Elas merecem isso!
No demais, oxalá que Deus multiplique pelo mundo afora mulheres tais como: a cientista Marie Curie, a religiosa Madre Teresa de Calcutá, a poetisa Cora Coralina, a política paquistanesa recém-assassinada Benazir Bhutto, e tantas outras. Nesse nosso imenso universo, há espaço para todos e para todas.
Carlos Augusto Vailatti
